Casal jovem conversando com médica sobre opções de preservação da fertilidade

Ao longo de tantos anos em contato com pacientes enfrentando o diagnóstico de câncer, vi de perto o peso emocional de tantas decisões que precisam ser tomadas em curto prazo. Quando o diagnóstico chega cedo, ainda na juventude, muitas perguntas ganham força. Uma das principais é: será possível ter filhos após o tratamento do câncer?

Com a evolução das terapias oncológicas, cada vez mais pessoas vencem o câncer e pensam em projetos de vida para além da doença. É aqui que entra uma área muito especial da medicina: a oncofertilidade. Hoje, desejo compartilhar informações e experiência sobre as alternativas disponíveis para quem não quer abrir mão do sonho de construir uma família após o tratamento oncológico. Vou abordar o conceito, os impactos dos tratamentos na fertilidade, as principais técnicas de preservação, os cuidados emocionais e os direitos dos pacientes nesse contexto.

O que é oncofertilidade e por que ela faz diferença?

A oncofertilidade une conhecimentos da oncologia, da reprodução assistida e do acompanhamento psicológico. No centro desse conceito está o desejo legítimo de jovens com câncer viverem as etapas da vida em plenitude, inclusive a maternidade ou paternidade. Eu gosto de resumir assim:

Oncofertilidade é cuidado integral com o futuro reprodutivo de quem enfrenta o câncer.

Na prática, isso significa pensar no impacto dos tratamentos, orientar sobre riscos e opções, planejar estratégias de preservação da fertilidade e respeitar os sonhos de cada pessoa. Essa abordagem, que já está consolidada nas principais diretrizes internacionais, muda o jeito de conversar com o jovem paciente oncológico. Ela traz esperança real, sem falsas promessas, mas com informações detalhadas e atualizadas.

Quando a oncofertilidade entra em cena?

Ao receber o diagnóstico de câncer, após choque inicial, pensamentos sobre a vida, o futuro e a família costumam emergir. Não importa qual o tipo de câncer ou o tratamento previsto. Se existe desejo de ter filhos, a conversa sobre fertilidade é fundamental e deve acontecer antes do início das terapias.

Geralmente, são adolescentes e adultos jovens entre 14 e 39 anos que mais se preocupam com essa questão. Mas há casos de interesse também em pessoas ainda mais jovens, quando o diagnóstico afeta crianças. O mesmo ocorre no caso de mulheres com idade reprodutiva e também homens que desejam ser pais após o câncer.

Impacto social e emocional da preservação da fertilidade

Eu vejo, na prática clínica, como a informação sobre as opções concretas reduz a ansiedade e o sentimento de perda. Ter a quem recorrer para esclarecer dúvidas, poder planejar e sentir-se protagonista da própria vida nesse momento difícil faz toda diferença. Preservar a fertilidade, então, não é um detalhe: é parte do cuidado global e respeita direitos reprodutivos do paciente oncológico.

Como o câncer e seus tratamentos afetam a fertilidade feminina e masculina?

Saber como o câncer pode ameaçar a fertilidade é o primeiro passo para fazer escolhas informadas. Tanto o tumor quanto as terapias necessárias podem prejudicar a saúde reprodutiva. Vou explicar de forma simples os principais mecanismos desses efeitos, considerando mulheres e homens.

Impactos nos ovários e óvulos

Nas mulheres, o principal risco de infertilidade está relacionado à função ovariana. Os ovários podem ser afetados diretamente pelo tumor (em alguns casos, como câncer de ovário), mas, principalmente, pela quimioterapia e radioterapia. Os medicamentos mais usados combatem células que se multiplicam rápido, mas também atingem os óvulos, que são limitados ao longo da vida.

Os resultados variam muito conforme a idade, o tipo de droga utilizada, a dose e o tempo de exposição. Por exemplo, mulheres mais jovens tendem a ter uma reserva ovariana maior, o que pode aumentar a chance de recuperação após o tratamento. Mas não dá para prever com exatidão.

A radioterapia na região pélvica ou abdominal também pode levar à falência precoce dos ovários. Danos em estruturas do útero e nas trompas podem aparecer, dificultando a gestação mesmo quando a função hormonal é preservada.

Impactos nos testículos e espermatozoides

No caso dos homens, o sistema reprodutivo também é sensível. A quimioterapia prejudica a produção de espermatozoides nos testículos, interferindo em todas as etapas da espermatogênese. Algumas drogas têm ações mais agressivas, podendo causar infertilidade temporária ou permanente.

A radioterapia na pelve ou próximo dos testículos pode danificar células germinativas e vasos sanguíneos, além de reduzir a produção hormonal. Isso pode afetar tanto a fertilidade como outras funções do aparelho reprodutor. Cirurgias para tratar tumores testiculares, prostáticos ou de bexiga podem comprometer vias de passagem dos espermatozoides ou causar lesões irreversíveis.

Outros efeitos dos tratamentos

Não posso deixar de citar que terapias hormonais, imunoterapias e procedimentos cirúrgicos em outras regiões do corpo também podem desencadear alterações indiretas na fertilidade, alterando hormônios centrais, modificando o ciclo menstrual ou interferindo na qualidade do sêmen. Por isso, cada plano terapêutico precisa ser avaliado individualmente, com apoio de uma equipe multidisciplinar.

Quantos casos terminam em infertilidade?

Essa é uma das perguntas que mais recebo. Mas é difícil dar um número exato. Isso porque o risco depende de diferentes fatores, como idade, sexo, tipo de câncer, esquema terapêutico e saúde global do paciente. O que posso afirmar é: a chance existe e é preciso discuti-la antes do início do tratamento.

Com a informação correta, a pessoa ganha o direito de escolher o melhor caminho para seu futuro, pesando riscos e benefícios de cada abordagem possível.

Como é feita a avaliação da fertilidade antes do tratamento oncológico?

No meu atendimento, costumo iniciar a consulta de oncofertilidade com uma conversa aberta. Pergunto sobre desejos, planos de vida, histórico familiar, saúde sexual e eventuais problemas reprodutivos prévios. A partir daí, passamos a detalhar exames para avaliar a chamada reserva ovariana (no caso das mulheres) ou a produção espermática (para os homens), além de testes gerais de saúde.

  • Nas mulheres, os principais exames iniciais são dosagens hormonais (FSH, LH, estradiol, AMH) e ultrassonografia transvaginal para contar folículos antrais;
  • Nos homens, é solicitado o espermograma para avaliar número, motilidade e morfologia dos espermatozoides, além de exames hormonais básicos (testosterona, FSH, LH);
  • Casais com planos mais imediatos passam também por avaliação genética e infecções sexualmente transmissíveis.

Esses exames ajudam a planejar as estratégias de preservação, indicando as opções viáveis e o tempo disponível para realizá-las com segurança antes de começar quimioterapia, radioterapia ou cirurgias.

Quais são as principais técnicas de preservação da fertilidade?

As alternativas para manter as chances de ter filhos após o tratamento oncológico têm avançado muito na última década. Vou explicar de forma clara as principais estratégias, detalhando para quem são indicadas, procedimentos envolvidos, vantagens e limitações.

Congelamento de óvulos (criopreservação de oócitos)

Essa é a técnica mais utilizada pelas mulheres jovens que ainda não têm parceiro ou preferem guardar seus gametas para uso futuro. O procedimento consiste em estimular os ovários com hormônios para amadurecer vários óvulos ao mesmo tempo. Assim, eles são coletados por punção, sob sedação, em um procedimento rápido e pouco invasivo. Logo em seguida, são congelados a –196 ºC em nitrogênio líquido.

O congelamento de óvulos pode ser realizado em poucas semanas e possui boa taxa de sucesso, desde que a qualidade dos óvulos seja preservada. O ideal é que o procedimento aconteça antes do início da quimioterapia. Após o tratamento e com estabilidade oncológica, os óvulos podem ser descongelados, fertilizados em laboratório e transferidos ao útero.

A principal vantagem é garantir a autonomia reprodutiva mesmo sem parceiro, com resultados cada vez mais animadores graças ao avanço das técnicas laboratoriais.

Para quem o congelamento de óvulos é indicado?

  • Mulheres em idade reprodutiva, geralmente até 38 anos, sem parceiro fixo;
  • Pacientes que têm no mínimo duas semanas antes do início do tratamento;
  • Mulheres solteiras ou que não desejam criar embriões naquele momento;
  • Casos em que há contraindicação para a gravidez no momento mas desejo futuro de gestação.

Sempre oriento que o número e a qualidade dos óvulos armazenados dependem da idade, reserva ovariana e tempo disponível. Não há garantia de gravidez futura, mas as chances aumentam com quanto maior for o número e qualidade dos óvulos congelados. Esse entendimento ajuda a manejar expectativas e minimizar frustrações no futuro.

Congelamento de embriões

Em situações em que a paciente já possui um parceiro e deseja garantir maiores chances de sucesso, pode-se optar pelo congelamento de embriões. Nesse caso, os óvulos são coletados, fertilizados em laboratório com o sêmen do parceiro e, após verificado o desenvolvimento inicial, os embriões selecionados são congelados. Nos últimos anos, esse método tem mostrado altas taxas de sobrevivência e implantação.

Costumo ver que muitos casais escolhem este método porque os dados de sucesso, por transferência, são ligeiramente maiores do que do congelamento apenas de óvulos. Isso ocorre porque a formação do embrião já indica boa maturidade dos gametas envolvidos.

  • Pode ser feito em mulheres com disponibilidade de tempo (mínimo de 2 semanas antes do início do tratamento);
  • Indicado para casais estáveis e com desejo conjunto de paternidade/maternidade futura;
  • Previsão de uso legal no futuro, mesmo em situações de falecimento do parceiro, depende da legislação vigente.

No entanto, há questões éticas e legais envolvendo o destino dos embriões não utilizados no futuro. Por isso, recomendo sempre discutir e registrar de comum acordo a destinação dos embriões em documentos próprios, considerando possíveis mudanças de desejo do casal com o passar dos anos.

Congelamento de espermatozoides (criopreservação seminal)

Entre os homens adolescentes e adultos jovens, essa é a principal técnica recomendada. O processo é relativamente simples: a amostra de sêmen é recolhida através da masturbação (em ambiente reservado e seguro), processada e rapidamente congelada. Em situações específicas em que não é possível obtenção por ejaculação, procedimentos como punção testicular podem ser indicados.

Você pode considerar interessante saber que células germinativas masculinas são mais resistentes aos ciclos de congelamento e descongelamento do que os óvulos, o que aumenta as chances de sucesso futuro. O sêmen congelado pode ser utilizado em fertilização in vitro, inseminação artificial ou técnicas mais avançadas, mesmo após anos de armazenamento.

  • Recomendado para homens em idade reprodutiva antes da radioterapia ou quimioterapia;
  • Permite coleta simples, rápida e sem necessidade de internação;
  • Procedimento pode ser feito em qualquer idade pós-puberdade, inclusive em adolescentes acompanhados pela família.

Congelamento de tecido ovariano ou testicular

Em meninas ainda não puberes (antes da primeira menstruação) e meninos sem maturidade espermática, as técnicas mencionadas acima não são possíveis. Nesses casos, o congelamento de fragmentos de tecido ovariano ou testicular tem se mostrado uma alternativa promissora. Aqui, um pequeno pedaço do ovário ou testículo é coletado por cirurgia minimamente invasiva e congelado em nitrogênio líquido.

Posteriormente, o tecido pode ser reimplantado após a cura do câncer ou utilizado para obtenção de óvulos e espermatozoides em laboratório. Apesar do número menor de casos de sucesso já relatados, essa técnica representa esperança concreta para pré-adolescentes ou crianças diagnosticadas com câncer.

  • Indicado para crianças sem maturidade sexual para produção de gametas;
  • Procedimento cirúrgico requer avaliação individual e discussão de riscos e benefícios;
  • Tecnologia em evolução, sendo considerada experimental em alguns centros.

Supressão ovariana temporária com análogos do GnRH

Outra estratégia, especialmente nas mulheres, é o uso de medicação para “adormecer” os ovários temporariamente durante a quimioterapia. As injeções de análogos do hormônio liberador de gonadotrofina (GnRH) buscam proteger os folículos ovarianos, reduzindo o risco de falência permanente. Embora não substitua as técnicas de congelamento, pode ser uma estratégia adicional, principalmente quando não há tempo hábil para coleta de óvulos.

  • Indicado para mulheres com cânceres sensíveis à hormonoterapia;
  • Eficácia variável; não deve ser usada de forma isolada se outras técnicas forem possíveis;
  • Complementa, mas não substitui criopreservação nos casos com maior risco.

Técnicas combinadas

Em alguns casos, pode ser interessante associar duas estratégias, como congelamento de óvulos e supressão ovariana, para aumentar as chances futuras. O plano individual sempre surge após conversa detalhada entre médico, paciente e equipe de reprodução assistida.

Como é o processo para decidir e realizar a preservação da fertilidade?

A tomada de decisão nesse contexto envolve muitas variáveis. O tempo é um fator essencial, pois os procedimentos de preservação devem ocorrer antes do início da quimioterapia ou radioterapia. Normalmente, há uma janela pequena: de alguns dias a poucas semanas, dependendo do protocolo oncológico. Por isso, a identificação precoce do desejo reprodutivo é fundamental.

Passo a passo do planejamento reprodutivo

  1. Conversa inicial sobre o desejo de ser mãe ou pai, com explicação honesta dos riscos e opções;
  2. Encaminhamento da paciente ou casal à equipe de reprodução assistida;
  3. Avaliação clínica e laboratorial específica de função reprodutiva;
  4. Discussão sobre viabilidade e tempo disponível, ajustando estratégias às condições de saúde e protocolos do câncer;
  5. Realização do procedimento escolhido;
  6. Congelamento do material reprodutivo em laboratório especializado, com documentação adequada e seguro;
  7. Comunicação constante entre oncologista, especialistas em reprodução e psicólogos durante todo o processo.

Há casos em que o tempo é tão curto que limita as opções. Mesmo assim, eu sempre incentivo a discussão franca, pois cada história é única. Algumas famílias ao menos conseguem entender os riscos e tomar decisões conscientes sobre preservação ou não da fertilidade.

Acompanhamento psicológico e acolhimento

O apoio emocional é tão importante quanto a técnica no processo de preservação da fertilidade.

Receber a notícia de um câncer durante a juventude já traz consigo inúmeras dúvidas e inseguranças. Quando se soma o medo de não poder ter filhos, os sentimentos podem se intensificar. Percebi, acompanhando muitos pacientes, que o suporte psicológico especializado faz a diferença no modo como cada um lida com as decisões. O acompanhamento ajudará no enfrentamento do luto da perda potencial da fertilidade, na gestão de expectativas realistas e no fortalecimento da autoestima durante e após o tratamento.

É fundamental garantir que o paciente e sua família se sintam acolhidos, sem julgamento, em um ambiente de confiança e respeito. O diálogo com o oncologista e a equipe multidisciplinar deve ser transparente, direto e compassivo.

Paciente protagonista: autonomia, direitos e acesso às técnicas de reprodução assistida

Ao longo dos anos, testemunhei uma evolução no reconhecimento do direito das pessoas com câncer à preservação da fertilidade e ao acesso às tecnologias de reprodução assistida. Por isso, gosto de reforçar que o paciente precisa ser protagonista do seu tratamento.

Autonomia na tomada de decisões

Desde o início das conversas sobre fertilidade, é fundamental que o paciente compreenda todas as estratégias possíveis, riscos, benefícios e limitações de cada técnica. Cabe a ele – e, quando apropriado, à família – decidir qual caminho seguir. O papel do médico é orientar com clareza, respeitando escolhas pessoais, valores culturais e aspirações individuais.

Respeitar o desejo do paciente é essencial em todas as etapas.

Direito à informação transparente

Todo jovem paciente oncológico tem o direito de receber informações claras, honestas e baseadas em dados atualizados sobre o impacto dos tratamentos e as opções de preservação da fertilidade. Isso deve acontecer antes do início das terapias, mesmo em casos de urgência oncológica. O acesso à informação é um direito e deve ser garantido em qualquer serviço de saúde.

Direito de acesso à reprodução assistida

No Brasil, a legislação reconhece a reprodução assistida como parte do direito à saúde reprodutiva. Hoje, está previsto o acesso a técnicas como congelamento de gametas e embriões para pacientes com risco de infertilidade por doença ou tratamento médico. Procedimentos podem ser realizados em clínicas ou hospitais com estrutura e equipe capacitada.

Importante lembrar que há regras específicas sobre o destino de material congelado, consentimento informado, tempo de armazenamento e utilização pós-tratamento. Recomendo sempre formalizar todas as decisões em documentos emitidos junto à equipe de reprodução.

Questões éticas e legais

Questões como destinação de gametas ou embriões não utilizados, uso pós-morte e possibilidade de doação para outro casal envolvem discussões éticas e legais complexas. O melhor caminho é alinhar expectativas e registrar escolhas por escrito antes do início do ciclo de preservação. Assim, evitam-se conflitos futuros e garantem-se os direitos reprodutivos dos envolvidos.

Aspectos emocionais: lidar com a incerteza e construir novos sonhos

Não posso deixar de destacar que preservar a fertilidade em pacientes jovens com câncer é muito mais do que armazenar células. É cuidar da esperança e do projeto de vida de quem, diante de um diagnóstico difícil, imagina – por vezes com medo – os caminhos para além da cura.

O impacto psicológico do risco de infertilidade

A notícia de um possível risco de infertilidade costuma ser devastadora para adolescentes, jovens adultos e suas famílias. Muitas vezes, o impacto vem junto com o medo da morte e da perda da identidade. Já ouvi relatos como: “se não puder ser mãe, não serei completa” ou “penso no futuro e não vejo mais opções”. Esses sentimentos são reais e, por vezes, ficam pouco visíveis no meio de exames e protocolos de tratamento.

Acolher o sofrimento do paciente é cuidar do corpo, da mente e dos sonhos.

Muitos jovens experimentam luto antecipado, ansiedade, tristeza e dificuldade em tomar decisões. O acompanhamento psicológico, tanto individual quanto familiar, auxilia a transformar esse sofrimento em caminhos de adaptação e construção de novos projetos.

Importância do acolhimento durante e após o tratamento

Sentir-se ouvido, compreendido e respeitado faz com que o jovem paciente estabeleça uma relação de confiança com a equipe e recupere a sensação de controle sobre a própria história.

Durante o tratamento, o suporte emocional mitiga impactos negativos no humor, ajuda na adesão ao tratamento e na retomada da autoestima. Após a cura, o acompanhamento se mostra relevante para processar perdas, lidar com possíveis limitações reprodutivas e ressignificar sonhos de maternidade ou paternidade.

Incentivo ao diálogo aberto com o oncologista

Estimulo sempre meus pacientes a conversarem sobre o desejo de ter filhos, logo nas primeiras consultas. Não é fácil abordar esse tema em meio ao susto do diagnóstico, mas, na prática, vi que um simples “você deseja ser mãe/pai no futuro?” pode abrir portas para decisões transformadoras.

Se for você, leitor, ou alguém que ama, que recebeu o diagnóstico: traga esse assunto para a consulta. Não aceite respostas superficiais. Questione, peça informações de qualidade e busque entender as reais possibilidades dentro do momento vivido.

Desafios, expectativas e perspectivas futuras

O campo da preservação da fertilidade em jovens com câncer evolui rapidamente, mas ainda enfrenta desafios. Entre eles, destaco:

  • A necessidade de maior acesso igualitário às técnicas de reprodução assistida para todos os pacientes;
  • A importância de atualização constante de equipes multiprofissionais sobre opções disponíveis;
  • Investimentos em pesquisa e desenvolvimento de técnicas ainda mais seguras e eficazes para crianças;
  • Tempo limitado entre diagnóstico e início do tratamento oncológico, prejudicando a realização dos procedimentos;
  • Barreiras emocionais, culturais e econômicas, que podem impedir a busca pelo direito reprodutivo.

Apesar dos obstáculos, o cenário futuro é de otimismo. Novas abordagens laboratoriais, avanços em tecnologia de crescimento in vitro de óvulos e espermatozoides e aperfeiçoamento de protocolos cirúrgicos ampliam horizontes.

Diversidade de famílias e novas configurações parentais

Vale lembrar que o conceito de família está em constante transformação. Cada vez mais pessoas se sentem acolhidas para buscar a maternidade ou paternidade solo, por reprodução independente ou em novos formatos familiares, sem tabu. Técnicas de preservação da fertilidade permitem que esse sonho seja respeitado, inclusive após a vitória contra o câncer.

Tecnologia e cuidado humano caminham juntos na construção de novas famílias.

Como conversar sobre fertilidade com os profissionais de saúde?

Se você está enfrentando um diagnóstico de câncer na juventude, minha orientação sempre é: traga suas dúvidas, medos e desejos para a equipe oncológica. Muitas vezes, a rotina de exames e protocolos faz com que assuntos como sexualidade e futuro reprodutivo fiquem em segundo plano. Mas só quem expressa esse desejo é ouvido de verdade.

Estar informado amplia seu direito de escolha e te coloca no centro das decisões sobre sua vida.

  • Anote antecipadamente suas dúvidas e expectativas;
  • Peça orientação sobre as alternativas viáveis para seu caso;
  • Exija informações claras e orientações escritas, se necessário;
  • Peça encaminhamento imediato para uma equipe de reprodução assistida, caso seja de seu interesse;
  • Lembre-se: suas decisões são soberanas e merecem ser respeitadas.

O papel da família e da rede de apoio

Ter o suporte da família ou de amigos próximos durante as escolhas relacionadas à fertilidade é muito valioso. Compartilhar dúvidas, ouvir experiências de outros pacientes e buscar informações qualificadas ajudam a atravessar os desafios desse momento delicado.

Se você é familiar, incentive o diálogo, participe das conversas e ajude a documentar tudo o que for decidido, sempre respeitando o protagonismo do jovem paciente.

Conclusão: fertilidade preservada é esperança renovada

Nesta longa trajetória acompanhando jovens com câncer, testemunhei histórias surpreendentes de superação, coragem e realização do sonho de formar uma família após o tratamento. A oncofertilidade representa mais do que técnicas inovadoras – é respeito pelo projeto de vida e pela dignidade dos pacientes.

Informação qualificada, acolhimento emocional e respeito pela autonomia são pilares para transformar o medo da perda em esperança concreta de novos começos.

Que os avanços na preservação da fertilidade ajudem a construir futuros, mantendo sempre viva a esperança de quem, apesar dos desafios, nunca deixou de sonhar.

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Dr. Vitor Magalhães

Sobre o Autor

Dr. Vitor Magalhães

Dr. Vitor Magalhães é oncologista clínico no Rio de Janeiro, especializado em diversos tipos de câncer e focado em promover um atendimento humanizado, que valoriza o acolhimento, explicações claras e apoio emocional aos pacientes. Ele incentiva hábitos saudáveis e adota uma abordagem individualizada, cuidando do bem-estar e das necessidades específicas de cada pessoa que busca seu consultório para uma experiência de tratamento mais tranquila.

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